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A qualificação da mão de obra é apontada pelo diretor geral da BEMO do Brasil, o engenheiro Fulvio Zajakoff, como um dos principais desafios para o setor de construção metálica. Recém eleito para a Vice Presidência de Coberturas Metálicas da ABCEM, ele aborda o tema na entrevista a seguir, além de medidas da associação e perspectivas para o segmento, que segue aquecido e com investimentos previstos para a Copa do Mundo, as Olimpíadas e grandes projetos governamentais no país. Formado em engenharia mecânica pela Universidade Mackenzie e com pós-graduação em comércio exterior pela Fundação Getúlio Vargas, o engenheiro iniciou sua trajetória na área metálica em 1989 e foi diretor da ABCEM de 1996 a 2001.


O senhor integra o novo conselho diretor da ABCEM. Quais as perspectivas da associação em relação ao setor de construções metálicas?


Fulvio Zajakoff – As perspectivas são muito boas em função dos grandes investimentos do governo: PAC [Programa de Aceleração do Crescimento], Pré-Sal, Minha Casa Minha Vida e grandes acontecimentos que vão ser a Copa de 2014 e Olimpíadas de 2016. O Brasil está se desenvolvendo e o crescimento do setor da construção metálica é diretamente proporcional ao crescimento do país.


O que o setor pode esperar em relação ao novo governo, já que o PAC, por exemplo, foi uma das bandeiras de campanha da presidente eleita Dilma Rousseff?


Zajakoff – Acredito que vai haver uma continuidade do governo Lula. Os projetos que estavam para sair vão ser realizados. Vai ser dada uma ênfase muito grande a aeroportos, que precisam de modificações urgentes e são obras que consomem muito a construção metálica, tanto na parte de estruturas quanto na parte de telhas e coberturas de fechamento. Acredito que o governo Dilma não vai reduzir os investimentos. A tendência é que continue igual ou até superior. O PAC é um programa que continua. Se ocorresse a troca de partido, poderia haver mudanças ou até mesmo paralisações. Há obras de infraestrutura que não envolvem a área metálica, em compensação há obras, como portos, armazéns de grãos, aeroportos, estradas e, em alguns casos, hospitais, que envolvem a área metálica.


O senhor citou os aeroportos e isso está ligado à Copa e às Olimpíadas, mas esses eventos têm influência indireta em outros setores, como turismo e comércio também. Qual o impacto disso na construção metálica?


Zajakoff – Esses eventos vão acelerar a modernização dos aeroportos, que já era necessária, mas agora o Brasil não tem outra saída. Existe uma data a cumprir e todos esses investimentos tem de ser feitos. Isso é bom porque sabemos que até 2014 muita coisa deverá ser feita. No caso da BEMO, estamos buscando novas tecnologias na área de cobertura, parcerias estratégicas, iniciando a fabricação de galpões em estrutura metálica. Investimos em um projeto de estrutura metálica e hoje somos um player em galpão completo. Visando a Copa do Mundo e as Olimpíadas, em um primeiro momento, e metrôs e outros investimentos no futuro, fizemos uma parceria com a Bayer, em que eles fornecem as placas de policarbonato e nós somos os instaladores, utilizando perfis metálicos.


E se esses Investimentos se concentrarem em períodos mais próximos aos eventos, há algo que a associação possa fazer para ajudar o setor a se preparar para essa demanda?


Zajakoff – Existe sim uma preocupação do setor de que todos esses investimentos saiam de uma vez e aí não vai haver capacidade produtiva para atender. Já existe um problema muito sério de mão de obra, de falta de profissionais capacitados. Se todos esses investimentos saírem ao mesmo tempo, vamos ter problemas de prazos, de qualidade, porque as empresas vão ter de trabalhar acima da capacidade. Não tem como [o setor] se precaver porque a decisão está nas mãos do governo. Uma possibilidade seria investir nas empresas para aumentar a capacidade, um risco relativamente alto já que as empresas podem ficar sem as obras.


No caso do PAC, muitas obras não saíram do papel. Já é possível perceber o impacto desse programa no setor?


Zajakoff – Sim, mas de forma muito sutil. Nós [da BEMO] concluímos uma obra agora no aeroporto de Macapá, que está incluída no PAC, mas essa obra é tão antiga que o programa nem existia ainda. Depois que a obra estava iniciada, foi paralisada e então usaram o PAC para finalizar. Mas não é uma obra que nasceu no PAC. Acredito que agora, com a necessidade dessas obras, o governo vá fazer algo mais organizado.


Com relação aos outros eventos, o que está previsto? Construção de estádios, arenas esportivas...


Zajakoff – Sim, e também o entorno. Com a economia crescendo, tornam-se necessários armazéns logísticos, supermercados, todos construídos em estruturas metálicas. São itens que vão se somando.


A mão de obra já é um problema e tende a se agravar. A associação pode fazer algo para melhorar isso, fomentar cursos de capacitação, certificação etc?


Zajakoff – Deve ser uma das metas – já foi nas gestões passadas – convênios com universidades e cursos técnicos. Com escolas técnicas principalmente, porque não adianta só engenheiro, o que falta é projetista, técnico de montagem... Tivemos uma reunião logo depois da posse em que foram traçados os planos para a nova diretoria e os novos projetos. A idéia é fazer palestras em universidades, cursos técnicos para atrair trabalhadores para esse setor. Algumas empresas têm feito escolas internas: a própria empresa começa a treinar o montador, a treinar o operário.


A associação tem essa preocupação com relação a programas de certificação para mão de obra também?


Zajakoff – Sim. As crises fizeram com que muitos trabalhadores da construção metálica fossem para outros setores porque não tinham emprego, não tinham perspectiva. Agora é hora de voltarem. Para combater a falta de mão de obra, as empresas estão investindo cada vez mais em equipamentos para automatizar e depender menos da mão de obra. Isso é uma tendência na maioria das empresas. O que está acontecendo também é o roubo de mão de obra entre empresas. Isso tem um limite porque vai se aumentando salários para pegar o funcionário do outro até chegar uma hora em que vai ficar inviável. As empresas têm uma saída que é a participação nos resultados para os funcionários. Já não têm como arcar somente com o aumento do salário.


E como está essa questão de investimento em tecnologia e inovação nas empresas?


Zajakoff – Ainda existe Preconceito em utilizar a construção metálica em detrimento à construção de concreto. Isso já está sendo vencido, principalmente com a ajuda dos arquitetos.


Com a globalização é muito fácil o acesso a novas máquinas e novas tecnologias de produção. As empresas estão buscando essas novas tecnologias, investindo em equipamentos pesados, como guindastes e gruas, e também em softwares de arquitetura, de cálculo de estruturas, tudo para a redução de custos e otimização da produção.

Qual a projeção de crescimento da associação para o setor de construção metálica em 2011?


Zajakoff – Acredito que seja diretamente proporcional ao PIB brasileiro. Talvez um pouco mais acelerado por conta da proximidade desses eventos, que são projetos que vão utilizar construção metálica. Outros setores podem crescer um pouco menos, mas esses projetos – especificamente Pré-Sal, aeroportos, Copa do Mundo, Olimpíadas e, em alguns casos, infraestrutura – utilizam a construção metálica. Por isso talvez o setor cresça alguns pontos percentuais mais que o PIB, não menos.


Qual foi o momento que marcou o início dessa trajetória de retomada do crescimento do segmento?


Zajakoff – Final de 2007 e 2008 já foram anos muito interessantes. Em 2009 teve a crise, afetou um pouco as empresas, mas logo depois houve uma recuperação. A maioria das empresas está perto de sua capacidade máxima.


O aquecimento do mercado imobiliário tem algum impacto na construção metálica?


Zajakoff – Existe uma modalidade de investimento que é a construção do galpão para alugar. Outros casos são de escritórios que são construídos em estrutura metálica, portanto o mercado imobiliário impulsiona a construção metálica também.


É possível apontar uma tendência para a construção metálica, um caminho por onde ela deva se desenvolver melhor?


Zajakoff – Construções de galpões para logística, investimentos na siderurgia, plataformas de Pré-Sal, que são estruturas metálicas de grande porte, em algumas situações para casas populares, para o Minha Casa Minha Vida. São sistemas construtivos em que na cobertura, ao invés de se usar madeira, usam-se perfis metálicos; ao invés de se usar telhas cerâmicas, usam-se telhas metálicas. Mas esse sistema construtivo está ainda em estudo.


O que ainda atrapalha o setor de construção metálica? Quais os obstáculos para um maior desenvolvimento?


Zajakoff – Ainda existe preconceito em utilizar a construção metálica em detrimento à construção de concreto, por se acreditar que alvenaria é mais resistente ou que a construção metálica enferruja. Isso já está sendo vencido, principalmente com a ajuda dos arquitetos. Outro entrave é capacitação. Há profissionais na área de cálculo que estão muito mais habituados a trabalhar com a área de concreto do que com a metálica. O que também atrapalha os fabricantes é a vinda de empresas estrangeiras porque o câmbio brasileiro está muito favorável para a importação. Em alguns casos o preço do material importado é mais barato que o material brasileiro. Isso também em função da carga tributária, que no Brasil é muito alta. Há também situações em que está saindo mais barato trazer todo o material de fora, a saída é nos unirmos para mudar esse contexto.

 

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