Nesta entrevista à revista Siderurgia Brasil, o vice presidente de galvanização da Abcem, Ulysses B. Nunes, analisa a recente evolução e as perspectivas do mercado de aço galvanizado por imersão a quente no Brasil.

Siderurgia Brasil - Assim como no aço carbono, houve crescimento aparente de consumo de aço galvanizado em 2010?
Nunes - No Brasil, o uso de aço galvanizado começou a se intensificar em 2006, teve uma retração momentânea por causa da crise, retomou o ritmo anterior e agora eu acho que não para mais até as Olimpíadas de 2016. Mesmo com essa evolução, porém, hoje o consumo anual de aço galvanizado para terceiros no Brasil é de 3 kg por habitante, enquanto na Itália - só para efeito comparativo -, o consumo anual por habitante é de 24 kg.
SB - Há um resultado palpável do consumo de aço galvanizado em 2010, em relação aos outros anos?
Nunes - Nos últimos anos, o consumo de aço galvanizado por imersão a quente tem evoluído 10% ano, em média, tendo atingido um volume de 350.000 toneladas em 2010. Esse ritmo tende a se manter e, inclusive, se intensificar e nos próximos anos.
SB - Quais são as expectativas para 2011 e os próximos anos?
Nunes - As expectativas são as mais positivas, com um crescimento mínimo de 10%. Isso deve ocorrer em função do início das obras para a Copa de 2014, das obras do PAC e, inclusive, de uma demanda maior por parte da Petrobras, que está usando esses produtos principalmente nas petroquímicas que está montando, as quais têm muitas estruturas metálicas, que utilizam muito aço galvanizado. Assim, acreditamos que o consumo de aço galvanizado por imersão a quente deve chegar ao patamar mínimo de 480.000 toneladas em 2015.
SB - Assim como em outros setores, tem havido a importação de muitos produtos galvanizados?
Nunes - Temos sofrido com a entrada de estruturas metálicas da índia e China, que já chegam galvanizadas, o que prejudica os fabricantes de estruturas metálicas e também os galvanizadores nacionais. Essa importação mais intensa se deve à questão do câmbio favorável e ao fato de que o aço tem estado barato fora do país, pelo menos até o ano passado, porque agora já subiu.
SB - Quais são as vantagens e desafios que o setor enfrenta?
Nunes - O setor de galvanização tem-se profissionalizado ao longo dos últimos anos. Hoje os galvanizadores já são considerados uma indústria de proteção do aço contra a corrosão. Todas as empresas se certificaram na ISO 9001, com a preocupação de cada vez oferecer maior valor agregado para seus clientes. Adicionalmente, elas têm tido uma grande preocupação com a sustentabilidade ambiental e social, o que as tem levado a se certificar pelas normas da ISO 14001, OSHAS 18000 e SA 8000. Ou seja, o setor começa a ter uma cara de indústria e estamos preparados para suprir a demanda dos próximos anos.
SB - Como está a disputa pelo mercado pelos vários integrantes? Há espaço para todos, ou uma disputa por um share maior?
Nunes - O crescimento da malha de fornecedores de galvanização por imersão a quente é inevitável e já está acontecendo. O número de plantas de galvanização tem crescido nos últimos anos: em 2005, havia 22 plantas, agora já há 26 plantas e em 2015 deve haver, no mínimo, 30 plantas. Sem esse crescimento não teríamos condições de atender à demanda prevista.
SB - Nas novas obras projetadas o galvanizado tem sido distinguido? Em quantos por cento?
Nunes - Nas obras do PAC ligadas à geração de energia elétrica e ao setor rodoviário, 100% das estruturas metálicas são galvanizadas. O setor agrícola é também um setor que utiliza muitos produtos de aço galvanizado. Também teremos muitas oportunidades na construção, ampliação e modernização dos aeroportos. E da mesma forma, as coberturas dos estádios são uma grande oportunidade assim como todo o material de aço utilizado no entorno dos estádios, como postes de iluminação, pórticos de sinalização, grades de proteção etc., que serão usados neles. Pode-se dizer que este é o melhor momento para o aço galvanizado ocupar o seu espaço.

SB - Em que nichos o uso de aço galvanizado tem evoluído com mais facilidade?
Nunes - A demanda de aço galvanizado tem se intensificado na construção civil, mais especificamente no setor de infraestrutura (rodovias, energia elétrica etc.), e nos setores petroquímico e siderúrgico. Nosso maior problema ainda é a desinformação dos clientes, já que a galvanização é o processo mais eficaz de proteção do aço contra a corrosão e com um custo competitivo, considerando a longevidade que proporciona às estruturas que a utilizam.
SB - Outras informações que o senhor considere pertinentes.
Nunes - Atualmente, está sendo desenvolvido pelo ICZ, apoiado por algumas empresas do setor, um intenso trabalho para viabilizar a galvanização do vergalhão de aço que é utilizado dentro no concreto. Esse trabalho já é realizado na Europa e EUA com bastante sucesso. A melhor prova das vantagens desses produtos são aqueles vergalhões corroídos que são vistos com muita freqüência em obras públicas, como viadutos e pontes. Trata-se de um novo mercado, hoje totalmente inexplorado, e qualquer percentual desse mercado representaria alguns milhares de toneladas de aço galvanizado. A galvanização dos vergalhões praticamente dobraria seu custo, mas que representaria, no máximo, 2% do custo final. O consumidor final teria um pequeno aumento no custo da obra, mas um ganho substancial em termos de segurança em relação à corrosão.
Ulysses B. Nunes é vice-presidente e coordenador do Comitê de Galvanização da Associação Brasileira da Construção Metálica (Abcem), diretor institucional do Instituto de Metais não Ferrosos (ICZ) e gerente geral da Mangels - Unidade Galvanização.
Fonte: Revista Siderurgia Brasil - 25/03/2011